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Começamos esse pequeno texto com trechos da crônica Nascer de Carlos Drummond de Andrade.

O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado. Era João, como o pai, e como aconselhavam a devoção e a pobreza. Enxoval e brinquedo de pobre, comprados com a antecedência que caracteriza não os previdentes, mas os sonhadores. E destino, para não dizer profissão, era o de pedreiro, curial ambição do pai, que, embora na casa dos 30, trabalhava ainda de servente.
Tudo isso o menino tinha, mas não havia nascido.[…] Estas imaginações, ditas assim parecem sutis; não havia sutileza alguma em João e sua mulher:[…] João sentia-se forte, responsável. Escolhera o sexo e a profissão do filho; a mulher escolhera a Cor; um moreno claro, cabelo bem liso, olhos sinceros. Não havia nada de extraordinário no menino, era apenas a soma dos dois passada a limpo, com capricho.
Esperar tantos meses foi fácil.[…] A mulher de João acordou assustada, sentindo dores[…] Na maternidade não havia médico nem enfermeira que o temporal tinha retido longe. João perdera o dia de serviço e esperou determinado.[…] Entardecia, quando a porta se abriu e a enfermeira lhe disse que o parto fora complicado, mas agora tudo estava em ordem, a criança na incubadora. “Posso ver?” “Depois o senhor vê. Amanhã.”[…]. Voltaria domingo.[…] Domingo pela manhã, João se preparava para sair; Quando a ambulância silvou à porta, e dela desceu, amparada, a mulher de João. “O menino?” “Diz que morreu na incubadora, João.” “E era mesmo como a gente pensava moreninho, engraçado?” Ela baixou a cabeça. “Não sei João. Não vi. Eu estava passando mal, eles não me mostraram”. E o menino, que tinha sido tanto tempo, deixou de repente de ser.

Esse texto, nos leva a refletir sobre a vida, sobre quem somos ou a partir de quem somos.
O que é Ser(humano)?! A busca incessante pelo ser, aceito, incluído, amado, visto. Somos gerados sendo e quando nascemos continuamos sendo, não por quem somos, mas pelo que o outro quer que sejamos.
Diante disso, a caminhada se torna angustiante, sem sentido e prazer. E para tentar corresponder às expectativas que nos são colocadas, somos levados por uma coação interna a buscarmos em fontes (álcool, internet, comida, relacionamentos, drogas, sexo) o alívio para essa angustia de ser o que o outro espera que eu seja esquecendo-se de quem verdadeiramente somos.
Precisamos voltar a Criação, ao início de todas as coisas. O Criador, o próprio Deus com toda a Sua criatividade e amor criou a terra e fez um lindo Jardim chamado Éden (lugar de prazer, delícias) e criou o homem a Sua Imagem e Semelhança, escrito em Genesis 1:26 e 27.
Ao lembrarmos essa verdade de que já somos Imagem e Semelhança do Criador, a caminhada se torna leve e prazerosa, não mais uma busca incansável pelo Ser, ou por fontes que nos dão a sensação de que podemos Ser, mas o nosso coração sabe que o Criador ao nos gerar e nos conceber já dizia ao nosso respeito, e parafraseando um trecho escrito por Carlos Drummond de Andrade “ E o menino, que tinha sido tanto tempo, continuou a Ser”.