Davi passou por muitas adversidades. Foi esquecido por seu pai, ignorado e maltratado por seus irmãos, afrontado por Golias, perseguido por Saul, chamado de louco, rejeitado por muitos. Contudo, mesmo em face a tantas dificuldades, a Bíblia diz que Davi era um “homem segundo o coração de Deus”. Ele não é chamado assim porque era um homem sem erros. Davi era um pecador como nós. Contudo, seu coração amava a Deus. Davi colocava suas aflições e dificuldades perante o Senhor. Ele não buscava vingança ou justiça própria, antes esperava em Deus. A cada manhã, Davi suplicava a Deus e vemos isso em suas orações descortinadas para nós no livro dos Salmos. A cada manhã Deus ouvia a sua voz. E a cada manhã Davi esperava pela resposta do Senhor. Deus honra aqueles que nele esperam. E por isso, Davi, que foi esquecido por seu pai, foi lembrado pelo Senhor. Davi, que foi ignorado e maltratado por seus irmãos, foi acolhido e cuidado pelo Senhor. O homem que foi afrontado, venceu a batalha com Golias, não porque era forte, mas porque sua força era o Senhor. Quando perseguido por Saul, foi escolhido por Deus para ser rei em seu lugar. O homem rejeitado por muitos, tinha sua oração aceita nos céus. Veremos então alguns sentimentos expressos por Davi em alguns momentos demonstrando angústia, sofrimento, desespero, tristeza ou mesmo alegria, e como ele colocou isso diante do Senhor.

 

CONFIANÇA EM DEUS NA ANGÚSTIA

 

“Responde-me quando clamo, ó Deus da minha justiça; na minha angústia, me tens aliviado; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração”. Salmos 4.1

 

Davi está angustiado quando escreve esse salmo. Muitas de suas orações foram escritas, inspiradas pelo Espírito Santo. Em face das dificuldades, Davi se volta para o Senhor. Não como última saída, mas como primeiro refúgio para sua alma. Davi conhece a Deus, conhece a justiça e a misericórdia do Senhor, e por isso pode descansar. Primeiramente, Davi sabe que Deus responde às orações. Deus não apenas está atento à nossa oração, como a responde. Em segundo lugar, Deus, em nossa angústia, em nossas dificuldades e aflições, traz alívio para nossa alma. A palavra “angústia” em hebraico significa “estreito”, “aperto”. E a palavra “alívio” significa “ser amplo”, “ser aumentado”. Deus, quando nós estamos oprimidos, apertados, alarga nosso caminho, trazendo consolo à nossa alma. Porque ele é compassivo e misericordioso. Por causa da misericórdia de Deus, nós podemos ser aliviados. Porque por meio de Cristo nós tivemos nosso fardo retirado. Ele foi oprimido, apertado, em nosso lugar. O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Por isso Davi diz: “Quem nos dará a conhecer o bem? SENHOR, levanta sobre nós a luz do teu rosto”. Salmo 4.6. E vimos aquele que era plenamente bom, aquele que é a luz do mundo, Cristo Jesus, o nosso Salvador.

 

DO DESESPERO PARA A ESPERANÇA

 

“Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto? Até quando estarei eu relutando dentro em minha alma, com tristeza no coração cada dia? …No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação. Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem”. Salmos 13.1-2,5-6

 

Davi escreve esse salmo quando estava sendo perseguido. Ele sequer sabia se estaria vivo no dia seguinte. A qualquer momento ele podia morrer nas mãos de seus inimigos. E diante de uma aflição tão grande, ele ora. Ele volta-se para o Deus que o podia livrar. Seu coração está em desespero e por isso ele clama: até quando Senhor? O Senhor se esqueceu de mim para sempre? Até quando meu coração continuará triste?

 

Passamos por situações semelhantes ao que Davi passou. Quando sofremos o luto, a enfermidade, a dificuldade financeira, tantos tipos de sofrimento que machucam nosso coração. E quando sofremos, tudo que queremos saber é quando vai passar. Será que Deus se esqueceu de nós? Será que Deus não está vendo nossas lutas? Por que Deus nos permite sofrer? Diante das adversidades tudo que temos é a foto do momento, não sabemos o futuro. Contudo, temos diante de nós um Deus que tudo sabe, e é soberano. Ele está no controle de todas as coisas.

 

Quando sofremos às vezes pensamos dessa maneira. Nunca achamos que o sofrimento pode ser para o nosso bem. Contudo, Davi, o rei de Israel, ao final do salmo, parece outra pessoa. Ele, que antes disse que seu coração estava entristecido, agora diz: “regozije-se o meu coração na tua salvação”. Ele, que antes pensa que Deus havia se esquecido dele, agora diz: “confio na tua graça… Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem”. Davi agora não olha mais para as circunstâncias mas para o Senhor. Quando olha para a graça de Deus, seu interior é renovado. Ele é outro homem.

 

Agora, percebe que Deus tem feito muito bem a ele. Todo livramento. Todo cuidado no meio do caminho. Deus o salvou e o tem salvado. Ele deixa de olhar para as dificuldades e passa a olhar para o Deus de sua vida e por isso ele se alegra. Ele não precisa se preocupar pois sabe que Deus está no controle e Deus tem um propósito. Ele confia no Senhor. E o Senhor planejava o trono para ele. Não somente o trono, mas de sua descendência viria aquele que traria salvação à humanidade.

 

Vivemos momentos de adversidades. Mas lembre-se, o Deus que cuidou de Davi também cuida de você. O sofrimento, muitas vezes, é uma escola de Deus para nos fortalecer para chegarmos a lugares mais altos, para a glória do nosso Redentor, Jesus Cristo.

 

 

CONFIANÇA EM FACE DA INSEGURANÇA (ANSIEDADE)

 

“Guarda-me como a menina dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas…”. Salmos 17.8

 

Diante das injustiças que sofria, Davi ora ao Senhor. Ele clama a Deus pela justiça divina. Em face das adversidades e inseguranças da vida, Davi recorre ao Senhor. Ele diz: “Guarda-me como a menina dos olhos”. O verbo “guarda-me” aqui vem da raiz shamar. Esse verbo significa preservar, salvar, manter sob vigilância, entesourar (guardar como um tesouro). Davi clama para que Deus o guarde como a pupila dos seus olhos. Diante da primeira ameaça, uma das primeiras coisas que protegemos são nossos olhos, pois são importantes para nós e são sensíveis. Assim, Davi clama a Deus para que o proteja assim como nós protegemos nossos olhos. Somos preciosos aos olhos de Deus e ao mesmo tempo frágeis. Por isso ele nos protege como a menina de seus olhos.

 

O outro pedido de Davi nesse versículo é: “esconde-me à sombra das tuas asas”. O verbo “esconde-me”  vem da raiz sathar  que significa ocultar, ser escondido cuidadosamente. Não é apenas colocar algo longe das vistas de qualquer maneira, mas cuidadosamente esconder com um propósito. A Bíblia diz que Deus se esconde de nós (Isaías 45.15), ele cuidadosamente se esconde com o propósito de que nós o busquemos e então ele se revele a nós. Agora, Davi clama para que Deus o esconda nas sombras de suas asas. Davi não está pedindo para que ele não seja visto pelas adversidades com o intuito de não sofrer, mas para que Deus seja o seu refúgio e protetor. Ele utiliza a figura das asas da águia como citado por Moisés em Deuteronômio 32.11, 12 quando temos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou”. Davi pede que Deus cuide dele como uma águia cuida de seus filhotes. Então ele não precisa mais ficar ansioso diante das insegurança, pois está seguro no Senhor.

 

 

DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE? (TRISTEZA)

 

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras do meu bramido?” Salmos 22.1

 

A depressão é algo que aflige a muitos. Uma profunda tristeza, às vezes por situações difíceis passadas, às vezes por causa de doenças, às vezes nem há algum motivo aparente. Apenas um nevoeiro que toma conta da alma. Às vezes a morte parece a saída menos dolorosa.

 

Davi passava por algo parecido. Ele está profundamente triste, chama a si mesmo de verme e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo (vs. 6). A tribulação estava próxima e Davi não encontrava alguém que o acudisse (vs. 11). Ao final do Salmo 22 ele diz: “Hão de anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez”.

 

Davi está apontando não apenas para si neste salmo, mas principalmente para o Messias, Jesus Cristo. As palavras do versículo 1, estão na boca do nosso Senhor na cruz do Calvário. Lá estava ele, pregado em uma cruz, sofrendo uma angústia terrível. O inferno subiu até a cruz naquele momento. Um nevoeiro estava sobre ele naquele dia. Um sofrimento até a morte antes mesmo de um sofrimento físico. Ele sofreu para satisfazer a justiça de Deus em nosso lugar. Ele morreu para nos dar vida.

 

Muitas vezes pensamos que ninguém nos entende quando sofremos ou que ninguém se importa. Antes de ser tomado de auto-piedade e um sentimento de comiseração, lembre-se que o Rei do Universo também sofreu, mais do que isso, ele sofreu por você e sabe o que você está passando.

 

Diante do sofrimento, preste atenção. Talvez seja uma oportunidade de aproximação do Rei do Universo, que quer mudar a sua história. Suas mãos traspassadas estão estendidas para você para tirá-lo da escuridão do sofrimento e trazê-lo para a luz de sua presença, onde há paz e alegria que excede todo entendimento.

 

 

APRENDENDO A SER GRATO NAS VITÓRIAS (ALEGRIA)

 

“Na tua força, SENHOR, o rei se alegra! E como exulta com a tua salvação!” Salmos 21.1

 

Davi está no trono. Por treze anos Davi foi perseguido por Saul. Passou por períodos terríveis de tribulação, angústia e deserto. Davi sofreu e durante todo esse tempo buscou a face do Senhor, reconheceu que Deus é quem o sustentava e o protegia. Agora, Davi está no trono. Seu reino está estabelecido e todas as nações temem a Israel. Saul está morto, e o reino está em paz. Davi não precisa temer a ninguém e está em segurança no trono. A promessa do Senhor para ele é que seu trono durará para sempre. O momento em que as pessoas estão mais vulneráveis é depois de uma grande vitória. Davi havia vencido, contudo, ele permanece voltado para o Senhor. Muitos clamam a Deus para que os socorra, mas depois poucos são aqueles que permanecem buscando a Deus e são gratos a ele.

 

Davi é grato a Deus. Ele está no trono, mas reconhece que a força de Israel não vem de seu rei, mas do Rei dos reis, o SENHOR. A alegria de Davi não está na coroa, nas riquezas ou no poder, mas em Deus. As riquezas, o poder ou o status não podem nos alegrar, apenas a presença graciosa do nosso Redentor. Davi reconhece isso e por isso se exulta com a salvação de Deus. Ele reconhece que é Deus quem protege seu povo, e por isso Davi é o rei modelo, aquele que é citado para todos os reis depois dele, para que o imitem. Servir e buscar a Deus quando tudo vai mal é algo muito comum. Porém permanecer fiel e confiando no Senhor depois da vitória é o grande desafio a ser seguido.

Rev. Daniel Simoncelos

O conceito de idolatria é bem extenso. Diversos livros colocam de maneiras variadas. Todavia, o mais comum é falar que idolatria é aquilo que toma o lugar de Deus em nossas vidas. Esse conceito, apesar de apropriado, pode ser aprimorado e ampliado. O conceito que vou usar não foi cunhado por mim, contudo, mas é muito empregado no aconselhamento bíblico. Logo, o conceito de idolatria é: “desejos legítimos – ou não – que tomam um lugar ilegítimo em meu coração”. Essa ideia pode ser aplicada a fatos como: conforto, dinheiro, sexualidade, amigos, comida etc. Por isso, esse conceito mais amplo, ajuda em nosso estudo.

No estudo da masculinidade, também podemos e necessitamos pensar a respeito de ídolos que afetam os homens. Contemplando a narrativa bíblica, reparamos homens que tiveram várias mulheres, pessoas que procuraram poder a todo custo e uma caça incessante por dinheiro. Então, firmado nisso, quero trazer à tona três ídolos maiores que abrem um leque para muitos outros ídolos relacionados.

  1. Sexo: o relacionamento sexual parece ser uma busca constante do homem. Não é atoa que muitos lutam contra todo tipo de imoralidade (de todos os modos contrários a Palavra). Seja na pornografia, em olhares adúlteros ou lidando com a mulher de forma aproveitadora ou objetificando o sexo alheio. A imoralidade, é um dos ídolos que têm levado muitos homens a ruína. A resposta bíblica é: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição; que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus” (1Ts 4.3-5).
  2. Poder: o homem busca ser o maior de todos. A fama, o controle, o dominar as pessoas está arraigado no coração do homem. Por isso, homens massacram outros homens, desmerecem mulheres e tendem a uma postura contrária a Palavra. A necessidade de ser o melhor, ou de se sobrepor a outros, é o ídolo da autoimagem e dos aplausos. A resposta bíblica é: “Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva, quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos.” (Mc 10.43, 44).
  3. Dinheiro: roupas de marca, relógios caros, celular de última geração e status. Trabalho incessante para ter mais. O dinheiro é algo bom e que carecemos, mas quando ele se torna um ídolo, ficamos escravos. E um ídolo, quanto mais você dá, mais ele pede. Assim, o dinheiro nunca é suficiente. A resposta bíblica é: “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (1Tm 6.10).

Por fim, ainda que de modo resumido, o que foi posto acima é um grande guarda-chuva no qual diversos outros ídolos estão debaixo. Examine seu coração. Seja honesto. Podemos tentar camuflar alguns ídolos, mas o Senhor reconhece todos eles. Sendo assim, não alimente falsos deuses em seu coração. Procure adorar exclusivamente o único e verdadeiro Senhor. Leve a sério isso. Não perca tempo com quem não pode te dar o que precisa. “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.” (1Jo 5.21).

– Pr. Lucas Carvalho

Em tempos de discussão da masculinidade tóxica, salta aos olhos a urgência de aprendermos o que significa a masculinidade às vistas do texto bíblico. Deus revelou-se na rica masculinidade de Adão, e sua figura era pura vida, nunca toxidade. Vejamos.

O homem (adam) foi criado para cuidar e zelar pelo solo (adamah). Vejamos: “Nem havia ainda Adam para cultivar adamah (…) Formou, pois, o Senhor Deus a Adam do pó de adamah”*. Portanto, até aqui podemos dizer que a masculinidade, ou melhor, a adaminidade é o frágil pó organizado e soprado pelo hálito divino imbuído de cultivar a criação e cultuar o Criador (nunca o inverso).

Vale destacar: o vocábulo “cultivar”, que mais tarde se tornou a palavra “trabalhar” em hebraico tem a conotação de “servir”. Diante disso, podemos avançar: masculinidade é servir

Homens tóxicos não sabem disso.

Em gênesis, o homem não é a medida de todas as coisas (para desespero de Protágoras), pois se assim fosse, tudo seria objeto e Adão o reizinho que ao todo dá sentido. A natureza não teria valor intrínseco, compareceria apenas como meio para a realização do enorme ego do proto-macho. Não haveria glória de Deus no vento, no bicho, no mato, no mar, cada elemento criado seria descartável e apenas um gigantesco playground cósmico para o usufruto de Adão (vale lembrar que assim também respondeu Platão a Protágoras**). 

A verdade é clara: quem dá sentido ao Ser é o Criador, jamais a criatura. Neste bojo, repito: a masculinidade bíblica não é a medida de todas as coisas, tampouco ao redor dela gira o mundo.

Homens tóxicos não sabem disso.

Ademais, sobre o homem, Deus exclamou o que Adão ignorava: o masculino sozinho não é bom. Mesmo vivendo na perfeição pré-queda, o Senhor aponta para algo que não estava pleno, ou dito de outra forma: não estava suficiente. Do alto de sua eternidade, Ele decide ajudar o macho. Sua ação auxiliadora se exterioriza na criação do outro: concomitantemente todo distinto e todo correspondente

Explico: embora feito a partir do próprio Adão, o processo de invenção de Eva não se filiou ao seu controle. Ele dormia passivo, descansava vulnerável e fez-se Eva. O arquétipo é evidente: o masculino não esta no controle de tudo, também precisa aprender a descansar e mostra-se vulnerável.

Homens tóxicos não sabem disso.

Isto posto, fica lúcido que com surgimento do outro, funda-se a frustração. Isto é, inaugura-se um novo tipo de limite para o ego. O outro sempre é um limite. Eis a ajuda que Deus queria dar ao macho.

Antes de Eva, tudo era Adão, sua voz ao escolher os nomes das feras era indiscutível, sua ação sem horizontes, sob os auspícios da autoridade de Deus, ele pairava irrepetível e supremo, contemplando-se imbatível no mundo.

Este quadro é o mais próximo daquilo que Adão não viveu cronologicamente: a infância da hombridade.

Um modo de existir no qual ainda não nos foi apresentado o desafio de amar voluntária e abnegadamente um ser que não é Deus, nem bicho. Trata-se de encarar o plural e a diversidade em nosso próprio campo de atuação, e respeitá-la. Ou seja, não nos cabe nem invadi-lo violentamente, nem negligenciá-lo medrosamente, como fazem os pirralhos.

Homens tóxicos não sabem que são pirralhos.

Evidentemente, estou consciente que antes da queda Adão não era egoísta ou controlador, isto se revela depois da fruta mordida, no entanto, ouço a, inequívoca, negativa divina sobre a incompletude do projeto humano vivido como uma aventura do tipo macho-voo-solo. Fato que me anima a pensar que Deus ainda ampliaria a consciência adâmica com a formação do outro. Ou seja, a formação de Eva, é também a formação de Adão.

Em tempo: não me referir em momento alguma à dicotomia: solteiros versus casados. Não precisa ser casado para vencer a eventual toxidade da vida – uma vez que o outro no mundo também desafia continuamente o solteiro – e, de forma análoga, o casamento não tira magicamente o veneno infantilizador que assola homenzinhos que não se conhecem como líderes servidores.

Obs:

* Utilizo aqui a tradução de Martin Buber e Franz Rosenzweig, Die Schrift.
** Teeteto

Texto por: David Riker (@david_riker)

Homens contemporâneos são seres da boca seca, lábios queimados, não de sol, mas de sede. Somos homens com sede do masculino, nunca nos perguntamos tanto sobre o que venha ser mesmo “ser homem”. E não faltam respostas para o que é o masculino saudável, mas mesmo chegando no topo de tal performance a solidão e a insatisfação vem como nevoeiro denso. Kant em um conversa com o historiador russo Nikolai Karamzin disse que se dermos a um homem tudo que ele deseja, e ele apesar disso, naquele mesmo momento sentirá que “tudo” não é “tudo”. A humanidade é o ser da falta, nossa sede não acaba.

Em 1952 Drummond já percebia que “não era fácil decidir se nossa época se caracteriza pelo excesso ou pela míngua da crença”. Acreditamos exageradamente em performances retóricas e estéticas.  Discursar sobre o masculino não te faz mais masculino, nem ter barba de lenhador (sem saber a diferença entre uma enxada e um machado). Nossas respostas para sede de masculinidade não satisfazem porque temos monumentos suntuosos e brilhantes enfeitando fontes pequenas. Corremos para lá com toda nossa sede por conta da imponência de sua aparência, e permanecemos com sede porque lá tem tudo, menos  a tal água de que precisamos. As fontes pequenas, que jorram apenas uma pequena dose, não enche um copo, nem pode se dizer na verdade que jorram, é quase um choro. Estamos cheios de boas ideias, mas permanecemos com a boca seca.

Nós homens todos sertanejos em tempo de terra rachada, poeira na garganta, os caminhos do masculino se tornaram estrada de chão, que quando passa um carro levanta aquela poeira, e nós estamos justamente no carro que vem logo atrás, tentando não sair da estrada, enxergando muito pouco a frente. A sujidade do pó é a presunção, vaidade, ostentação.

John Eldredge diz que “Para se tornar um homem (e para saber que precisa se tornar um homem) o menino precisa ter um guia, um pai que mostrará como consertar uma bicicleta, como lançar a vara de pescar, como chamar uma menina, como conseguir emprego e todas as muitas coisas que um menino enfrentará em sua jornada para se tornar um homem. É preciso entender uma coisa; a masculinidade é concedida.” Um menino tem muito o que aprender em sua jornada para se tornar um homem e ele se torna um homem somente por meio da intervenção ativa de seu pai e da companhia de outros homens. Isso não pode acontecer de outra maneira. Mas isto não é tudo. Existe uma porção do masculino que só se adquire na relação com Cristo, no caminho, seguindo suas pegadas. E para alívio de nossa ansiedade é bom que saibamos que jamais chegaremos a ser bem os homens que devíamos, e com misericórdia Deus nos perdoou disto também, e que no porvir celeste seremos completos, por hora nos basta a esperança, e a humildade, que já é grandiosíssima coisa.

Precisamos aprender que nossas potências masculinas mesmo que doadas por uma pai piedoso e amigos queridos são como cavalos selvagens soltos no pasto assustando as pessoas, um perigo. Mas que com um bom cocheiro (Deus Pai), um excelente domador  (Santo Espírito) e um exímio cavaleiro (Deus Filho) o ginete vira arte, corcel capaz de conduzir reis e rainhas, acelerar o caminho dos mensageiros, multiplicar a força dos soldados, decidir guerras, ser a força que faz cidade elevar-se. Os homens que precisamos são os homens de Deus, que também tem sede, mas não por falta de água, mas porque seu desejo é para o eterno. A palavra desce como chuva, fazendo a poeira descansar no chão, é o fim do seu turno. Homens bocas secas, busquem O Homem fonte!